domingo, 4 de março de 2012

Irã x Israel: quais as opções?


Heitor de Paola, acadêmico “honoris causa” da Academia Brasileira de Filosofia
Relações internacionais são muito mais complexas do que parecem na superfície e não se pode tomá-las prima facie. Em casos de guerra ou ameaças de conflitos, então, a situação é muito mais complicada. Os contendores costumam esconder trunfos reais e anunciar outros, que não possuem, aos quatro ventos. Geralmente estes últimos contêm doses razoáveis de blefe. Já Sun Tzu recomendava: se você está forte, faça o inimigo pensar que está fraco, se estiver fraco, alardeie poderes para esconder sua fraqueza do inimigo. É a base da desinformação, que os comunistas transformaram numa verdadeira arte. Um exemplo basta. Em 1961, na crise dos mísseis em Cuba, Krushchev ameaçou com um conflito nuclear mundial contando com apenas 300 ogivas contra 5.000 americanas. O blefe deu certo e o objetivo principal da operação foi atingido: arrancar dos americanos um compromisso de que jamais iriam intervir em Cuba novamente.
Observando por este ângulo podemos perguntar se a gritaria de Ahmadinejad e dos Aiatolás não passa de um grande blefe. Idem, as ameaças de Israel atacar os reatores nucleares iranianos. Quem quer atacar, ataca, não fica fazendo ameaças dando tempo ao inimigo se armar e preparar melhor as defesas, como alertou recentemente o Ministro da Defesa de Israel Ehud Barak: o programa nuclear iraniano entrará em curto prazo numa “zona de imunidade”, na qual suas instalações serão protegidas contra ataques militares em profundas escavações (é o caso das instalações de enriquecimento de Natanz e a nova usina em Fordo). Netanyahu advertia já em 1996: os EUA deveriam impedir a nuclearização dos estados terroristas. Dizia, então: “O prazo para isto está se aproximando rapidamente do ponto crítico (…) A dissuasão (deterrence) deve ser reforçada com prevenção – prevenção efetiva e imediata O prazo está se esgotando”.
Analistas céticos consideram que se Israel estivesse realmente se preparando para um ataque, não estaria ameaçando tão abertamente esta opção, como ocorreu quando dos ataques de surpresa contra Ozyrak em 1981 e contra a Síria em 2007. As ameaças atuais teriam em vista aumentar a pressão para incremento das sanções econômicas e o estrangulamento do Irã, embora não esteja afastada a possibilidade de um ataque ainda neste ano, com ou sem apoio americano. Ocorre que aqueles ataques exigiram um número limitado de bombardeiros para destruir uma única instalação na superfície, o que não é o caso do Irã, muito mais distante com alvos a quase dois mil quilômetros, que dispõe de várias instalações espalhadas por um vasto território e um ataque bem sucedido apenas a algumas, deixando outras intactas, serviria para dar um pretexto ao Irã e ainda colocaria a malfadada “comunidade internacional”, que permanentemente é contrária a Israel, ainda mais à vontade para atacar o Estado Judeu. Problemas estratégicos, táticos e logísticos a enfrentar seriam alcance, reabastecimento, a natureza dos alvos e as rotas de ataque e fuga. A Força Aérea Israelense teria comprado 125 caças F-15I e F-16I, equipados com tanques maiores de combustível - feitos sob medida para ataques de longo alcance e bombas de penetração especiais e desenvolveu grandes aeronaves não tripuladas. Certamente existem muitas coisas que não se sabe sobre a capacidade militar israelense.
Já a ameaça iraniana de fechar o Estreito de Hormuz na presença de uma armada americana que pode liquidar o Irã em poucas horas, não passa de blefe com a intenção de amarrar a força americana no local. Há também outro fator: por ali escoa a produção de petróleo dos Emirados, Qatar, Bahrein, Iraque e da poderosa Arábia Saudita, sunita, que enfrenta uma oposição xi’ita exatamente na franja do Golfo. Este país, assim como Egito e Turquia tem interesses próprios de hegemonia e não interessa a nenhum deles um Irã como potência nuclear. Os interesses e estratégias na região fazem com que a “identidade muçulmana” seja apenas superficial, não somente por causa das divisões internas do Islam como também porque etnicamente os iranianos são persas, não árabes. Talvez não seja do conhecimento geral, mas o Irã cedeu secretamente as suas bases aéreas para os aviões israelenses pousarem, caso houvesse algum problema de retorno após o ataque ao reator iraquiano.
Fontes bem informadas determinaram que Tehran, após uma escalada de ameaças nos exercícios militares no final de fevereiro, estariam se afastando da zona de Hormuz e apresentando uma versão mais defensiva. Em contraste com os exercícios navais de 24/12 a 03/01 (Velayat 90) no Golfo de Oman e Estreito de Hormuz, as grandes manobras navais (Grande Profeta VII) programadas para 19/02 foram adiadas. As operações atuais, de natureza defensiva, se realizam no centro do país, longe do Golfo, do Estreito e da fronteira com o Afeganistão. As autoridades israelenses determinaram três critérios principais para decidir se e quando atacar: 1) Estão funcionando as sanções internacionais? 2) Israel tem realmente capacidade de destruir com eficiência a capacidade nuclear do Irã? 3) Os EUA darão o sinal verde para um ataque israelense? Segundo Leon Panetta, secretário de Defesa americano, o Irã só poderá atingir plena capacidade nuclear dentro de um ano aproximadamente o que seria considerado o point of no return para os EUA e Israel. E acrescentou: “se tivermos que fazê-lo, faremos” (If we have to do it, we will do it). Foi a declaração mais forte de uma autoridade Americana até o momento. Mas podemos levá-la a sério? Dificilmente! A retaliação iraniana contra o suprimento de petróleo, mesmo sem fechar o Estreito, faria o preço subir astronomicamente. A retirada das forças americanas no Iraque não significa que seus interesses no petróleo do Golfo cessaram. Como resultado de um ataque Israel ficaria ainda mais isolado diplomaticamente, além de dar o pretexto para nova onda de antissemitismo no mundo inteiro. E Israel precisa proteger seus irmãos na Diáspora. Um ataque iraniano poderia ter o efeito de despertar nova onda de solidariedade aos judeus, como ocorreu após a descoberta do Holocausto. Enquanto não ata nem desata, segue a onda de atritos: Israel acusou o Irã pelos ataques aos seus diplomatas em Tbilisi e Nova Delhi. Como resposta, o Irã acusou Israel de ter simulado os ataques para por a culpa em Tehran. E la nave va.... Por enquanto em mares revoltos na superfície, mas relativamente calmos nas profundezas. Mas um tsunami pode estar se armando.
Artigo publicado no jornal “Visão Judaica”, de Curitiba

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